[Casa das Pombas] Rádios Livres - Carta de solidariedade às presas políticas

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No último dia 09 de outubro, a polícia do Distrito Federal, sem nenhum respaldo legal, invadiu e despejou a Ocupação Casa das Pombas e seqüestrou dez pessoas que estavam no local. Há cerca de um mês o prédio estava sendo
recuperado e utilizado para a realização de atividades culturais, políticas e sociais. Esse espaço pertence juridicamente ao Banco Itaú - o segundo maior banco privado do país - e se encontrava abandonado há mais
de 10 anos.

No dia anterior, policiais haviam entrado no prédio em busca de provas que justificassem o despejo imediato. Na tentativa de caracterizar um flagrante, a policia tentou enquadrar as pessoas em diversos crimes: tráfico, roubo de água e eletricidade, esbulho possessório, não importava o que fosse. Por fim, chegaram à acusação de formação de quadrilha, associação para o crime.

Consideramos a ação arbitrária e entendemos essas prisões como políticas, seqüestros efetuados pelo Estado criminalizando uma iniciativa política autônoma. Tratar uma ação política divergente como crime não visa apenas
evitar a perda da propriedade em questão, mas também intimidar, acuar, fragilizar, isolar, vulnerabilizar social e pessoalmente estas ativistas, seus coletivos e movimentos, e quem mais estiver agindo ou pensando em
agir de forma semelhante. É uma tentativa de impedir o avanço de pensamentos e práticas que tentam construir relações que não se pautam apenas em interesses econômicos.

As ações conjuntas da polícia e do poder judiciário se fundamentam na política de higiene social do governo do Distrito Federal. Essas ativistas não são criminosas. Elas foram presas por se posicionarem de forma ativa
contra a lógica de valorização do espaço urbano de acordo com desejo de lucro de especuladores imobiliários e do capital.

Qual é a função do espaço urbano e a quem ele serve? No sistema vigente, é melhor que o prédio do Itaú permaneça abandonado, sem nenhum uso, do que reciclado ou cumprindo uma função social como a que estava sendo
realizada. O que importa é a sua valorização econômica e a padronização do que é aceitável, afastando tudo o que se difere do pensamento hegemônico.

A prisão dessas pessoas é uma ameaça a todas nós que não apenas sonhamos com uma sociedade mais livre e justa, mas que também agimos na sua construção. O movimento de Rádios Livres é comumente criminalizado e perseguido da mesma forma que as ocupações urbanas e rurais. Assim como o ar não deve pertencer a alguns grupos ou indivíduos e sim à coletividade, o espaço urbano não deve servir de terreno para o acúmulo e a especulação de poucos. A nossa luta pelo acesso irrestrito ao espectro eletromagnético e à liberdade de transmissão e comunicação vai de encontro à luta pela ressignificação e reocupação do território urbano, baseados em outros moldes que não busquem atender ao interesse do capital.

As pessoas e coletivos presentes no Encontro de Rádios Livres se solidarizam com as presas políticas/os e se indignam com a repressão e a perseguição realizadas pelos agentes do Estado. Consideramos esse ataque à Ocupação das Pombas como um ataque a nós mesmas. As invasões arbitrárias aos prédios ocupados se equivalem às invasões arbitrárias às rádios livres e ao roubo de seus equipamentos. Uma casa ocupada e revitalizada com interesses coletivos se torna nossa casa. Assim, nos sentimos violadas e seqüestradas e também estamos presas.

Soltem nossas presas!

Encontro de Rádios Livres

Goiânia, 14 de outubro de 2007